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Do Fanzine para o Blog — Parte 1: Chorão, 12 anos de um legado vivo

Chorão foi um verdadeiro poeta, fez a trilha sonora de gerações, é eterno, um louco consciente, marginal alado, que faz muita falta na cena musical e em nossos corações. Vocalista, fundador e líder do Charlie Brown Junior, Chorão, nosso marginal alado lutou por cada centímetro do seu lugar no mundo.

Em 2025 faz 12 anos que o marginal alado mais querido dos últimos tempos foi em busca do seu esperado lugar ao sol. Alexandre Magno Abrão, o Chorão, nos deixou em 06 de março de 2013.  A banda fez e continua fazendo a trilha sonora da vida de milhares de brasileiros e estrangeiros, pois tinha a capacidade de traduzir nas composições, seus sentimentos, vivências, inseguranças,  palavras de ordem, questionamentos e muitos protestos.

Apesar de ter um lado explosivo, Chorão também era uma pessoa muito amorosa e se preocupava muito com os outros. 

A pessoa que vos fala, também teve uma experiência que guarda com carinho em suas memórias.
O ano era 2014 e a sua escola foi convidada para participar do Programa Altas Horas, a lista de convidados não foi divulgada, mas, ao chegar no estúdio de gravação, um dos convidados era ninguém mais ninguém menos que o Chorão. Muito emocionada e feliz, disse para o Chorão: “posso tirar uma foto com você” e com um sorriso ele respondeu: “claro”. Eu decidi pular da plateia para o palco, mas, não contava com muitos equipamentos caros ao lado da plateia. Chorão foi muito rápido, e conseguiu me pegar no ar “cuidado, cuidado, você pode se machucar, fica aí que eu subo aí”. Ele subiu, e eu tirei a minha primeira e única foto com o cara que eu admiro há tantos anos na cena do rock nacional e mundial.

O baterista Bruno  Graveto relembra de uma outra cena, antes de um show em Salvador, Bahia, eles estavam dentro da van, indo para o show e  o Chorão ficou incomodado com um morador de rua. Ele desceu a pé da van, já que o veículo não conseguia fazer o retorno na via, e entregou para o rapaz todo o dinheiro que tinha no bolso.

O guitarrista Marcão Britto recorda que Chorão “acreditava no potencial de cada um de nós. Às vezes mais do que a gente mesmo”. Ele também relembra que foi o próprio Chorão que bancou boa parte do videoclipe “Não Deixe o Mar Te Engolir”, pois a gravadora, Virgin Records, não quis arcar com todos os custos. Thiago Castanho define Chorão como um visionário “parecia que sempre estava um pouco à frente”.

Sobre a fama de seu temperamento forte devido ao estrelato, os companheiros de banda rebatem: “Ele manteve o jeito largadão, a vida simples” e Marcão complementa, dizendo que  o Chorão sempre teve um temperamento forte e você ouvia as pessoas dizerem: ‘O sucesso subiu à cabeça dele’. Mas não era isso, ele sempre foi assim, desde que a gente o conheceu. 

“Durante uma turnê, o Charlie Brown estava em um ônibus alugado para outros grupos musicais e Chorão descobriu a bordo os letreiros, com os nomes dos outros artistas, e decidiu que a banda viajaria com a placa “Chitãozinho e Xororó” pendurada no veículo. 

A cada parada, fãs dos sertanejos batiam à porta, querendo falar com Chitão. 

Mas quem os recebia era Chorão,  que estava sorridente, esparramado nos últimos bancos do ônibus.

E chorava mesmo?
O apelido de Chorão veio de um amigo skatista durante sua infância. 

Isso porque ele gostava de assistir seus amigos fazendo manobras e tentar reproduzi-las. Porém, seus amigos gostavam de fazer piadas de suas reclamações durante o processo de aprendizagem, pedindo para que ele “não chorasse”. Quem deu o apelido para Chorão foi o skatista Fabio Bolota, nas sessions de skate no parque do Ibirapuera, mas ele também incentivou o músico a parar de ficar cabisbaixo.

No início ele não gostou do apelido, mas, quanto as pessoas menos gostam, mais o apelido pega, e pegou, Alexandre Magno Abrão ficou internacionalmente conhecido como Chorão.

Outras músicas poderiam ser algum tipo de alerta?
Desde o primeiro álbum, existem menções sobre drogas e depressão. Por mais que fossem camufladas por metáforas, às vezes era apenas um grito de dor de um homem que falava a verdade, mas ninguém se importava, botando pra fora tudo o que sentiu na pele, mas ninguém lhe dava ouvidos não. Ou quando nessa mesma música “Quinta Feira”, podemos ouvir que o difícil é desviar de quem tá sempre querendo, ela mantém a porta aberta, ela te faz de instrumento, e que ela vai te dominar, se já não dominou, nesse caso, a referência é para a cocaína. Ou quando ele diz na música “Com A Boca Amargando”, que ele teve uma noite louca, que mais uma noite dessas, ele tomba, que os seus neurônios estão batendo em retirada, e que ele vive um momento irracional como se fosse tudo normal, que ele é só um comum, observador de longe, de longe, muito longe. Ele só queria se divertir um pouco. Mas, ainda sim estava sentindo o gosto amargo dessas coisas erradas, e ele também sabia que o poço da loucura é muito fundo, e que todos nós cabemos no jardim da insanidade. Chorão tinha razão em uma coisa: quando você não mais servir, eles vão te esquecer,  ganha que sabe perder. 

E é bom sempre lembrar que você não pode se fechar para o mundo com medo de se machucar, se não você se machuca por não viver. Viva todo dia, mas saiba voltar.

O uso de drogas deve ser discutido, na televisão, rádio, em mídias impressas e digitais?…
O tema é polêmico mas precisa ser discutido. É um dedo na ferida de muitas pessoas. Para quem não faz uso de substâncias, certamente conhece alguém, ou convive com uma pessoa adicta. Chorão teve problemas com as drogas, e foi a cocaína que o levou à morte. 

É possível que as recusas de tratamento, mais o consumo exagerado de drogas tenham sido as responsáveis pela separação de Chorão com a estilista Graziela Gonçalves, quem ele carinhosamente chamava de Grazon.

Eles passaram por muitas idas e vindas no casamento e Graziela acreditou que essa nova separação poderia ser uma última tentativa para que ele “caísse na real” e percebesse que para ficar com ela, deveria parar de usar.

É necessário entender sobre os riscos e as consequências das drogas na saúde física e mental das pessoas. Além de sérios danos ao organismo do usuário, o uso de substâncias ilícitas pode provocar impactos sociais e econômicos em larga escala, além de afetar diretamente amigos e familiares dos usuários.

Que a morte de Chorão, mesmo depois de tantos anos, sirva de lição para os mais jovens, que acham que tem controle, mas não tem.

A depressão de  Chorão, do baixista Champignon e de muitas pessoas: um grave alerta
O discurso do Chorão externava um grito que era de muitas pessoas, de diferentes idades, classes, gêneros, raças e credos.

Há anos atrás, as conversas sobre saúde mental não eram abertas e a falta de conversa e de apoio culminou na morte de muitas pessoas, inclusive do vocalista Chorão e do baixista Luiz Carlos Leão Duarte Júnior, conhecido como Champignon.

Qual é o sentido da vida?  Qual é o destino da vida? 

Essas são perguntas diferentes, com respostas diferentes. Muitas vezes nós (até de forma ingênua) nos perguntamos sobre a vida, sobre o seu sentido. Será que um objetivo individual de cada um pode ser considerado como o sentido da vida daquela pessoa?… 

Na letra de Hoje Sou eu que não te Quero Mais, do último álbum lançado, La Família 013, no ano de 2013, é dito que nós corremos o tempo todo atrás de um tal de ideal, mas, que isso é baseado  em um formato que talvez não seja o ideal, para nenhuma das pessoas. Quem é que cria, ou que define qual o tipo de ideal que deve ser seguido? 

Será que vale mesmo a pena dar valor para o que as pessoas pensam para se perder pelo mundo? Eu acho que não.

Diante de um sofrimento, ou de uma angústia, não podemos esperar da vida, não podemos sentar e esperar. Mas vamos descobrir, muitas e muitas vezes, diante de nosso sofrimento, que o que mais nos importa não é única e exclusivamente o que nós esperamos da vida, mas sobretudo o que a vida espera de nós.

É verdade… Algumas músicas do Charlie Brown Jr, Planet Hemp, Raimundos, não se preocupavam muito com o politicamente correto. Elas externavam o pensamento de muitas pessoas. Os desejos, as angústias, as satisfações e insatisfações. 

O casal, um encontro de almas?…
Na noite da morte de Chorão, Graziela teve um sonho: “Alexandre estava diante de mim e atrás dele havia um vulto bem alto e escuro. Ele me disse que iria viajar, que não aguentava mais e que precisava partir (…) Despertei de repente, com o som da campainha tocando sem parar (…) 

Quando abro, dou de cara com minha mãe e Mariela chorando: ‘O Alê, filha’”

Chorão e Grazon, casal jovem abraçado e sorridente numa fotografia dos anos 1990.
Registo de um momento de carinho de Graziela Gonçalves e Alexandre Magno Abrão

Essas e outras histórias e fotografias podem ser encontradas no livro escrito por Graziela Gonçalves: “Se não Eu Quem Vai Fazer você Feliz: Minha História de Amor com o Chorão”

Duas capas do livro “Se Não Eu, Quem Vai Fazer Você Feliz?” (capa comum e capa dura - edição especial)
Duas versões da capa do livro autobiográfico de Graziela Gonçalves, que conta uma história de amor marcada pela música, pela parceria e pela memória.

Dias de Luta, Dia de Glória (Charlie Brown Junior). Lançada em 2005, no álbum Imunidade Musical
Essa música funciona quase como um hino, chamando para a luta, em busca de conquistar a  glória, com resistência e esperança, de pessoas que estão em diversos momentos de suas vidas.

A existência humana faz com que as pessoas passem por dias difíceis, com desafios, obstáculos e muitas lutas, mas que também existirão os dias de glória,  quando a vitória é alcançada e as recompensas são colhidas. A vida é uma montanha russa, com altos e baixos. Às vezes com mais baixos do que altos, mas, temos que ser fortes e enfrentar as dificuldades encontradas pelo caminho com coragem e determinação. 

Nos momentos mais difíceis é que a nossa força e fé são testadas, os dias de luta nos moldam, e nos tornam mais fortes.

Batalhas, glórias, alegrias, tristezas… Nunca existirão dias de glória sem, ter os dias de luta. Ninguém vence uma guerra sem ter perdido algumas batalhas., quanto mais a gente rala, mais a gente cresce. 

E a vida me ensinou a NUNCA desistir, nem ganhar, nem perder mas procurar evoluir.

A luta não deve ser vista como um fardo, mas como um crescimento pessoal. Superar desafios pode nos deixar mais experientes, sábios e resilientes. Tenha certeza de que dias melhores virão. 

Abrace a vida, com as alegrias, tristezas, lutas e conquistas.

A letra pode ser interpretada para quem quer um cargo, uma viagem, um amor, um bem, ou qualquer coisa que se deseja muito. Também podemos falar sobre a solidariedade, não estamos sozinhos nas nossas lutas nem em nossas glórias, e ter um apoio ajuda a superar desafios mais difíceis, pessoas juntas podem fazer a diferença, juntos somos mais fortes não é mesmo?…

Vamos cantar a nossa vida com orgulho, pois vão acontecer muitas coisas nela, mas, devemos levar esse pensamento conosco, Hoje, LUTA, em breve GLÓRIA.

Mas voltando aos sonhos
É sempre a mesma pergunta:  o que você quer ser? O que eu quero ser? Quem eu sou? Como estou? Como vou? Para onde eu vou? Para onde vamos? Para onde devemos ir?…

E onde os meus sonhos encontram forma…
Claro que não podia faltar a minha reflexão por aqui… Bom, trabalhar com design também é luta (e que luta ). Não é apenas criar algo bonito… É transformar sentimentos, pensamentos, vivências em algo que toque as pessoas.

E, no fundo, o percurso criativo é exatamente isso que o Chorão cantava. A gente tenta, erra, levanta, aprende, desaprende e continua. Sonhar é trabalhoso. Criar é trabalhoso. E é nesse processo, entre rascunhos, bloqueios, ideias e recomeços é que nós descobrimos quem somos, qual é a nossa essência.

É no design que eu me reinvento. Onde encontro sentido. Não porque seja fácil, mas porque é meu. Porque, no meio dos dias de luta, o design vira a forma de transformar o mundo, e a mim mesma, um pouquinho de de cada vez.

E sigo, sabendo que, tal como na música, há dias de luta… mas também há dias de glória. É isso que me faz continuar.

Vamos viver nossos sonhos… Temos tão pouco tempo

(Como Tudo Deve Ser – Charlie Brown Junior)

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